Poeta - José Alberto Lopes

 

 

José Alberto Lopes , nascido na cidade de Cubatão-SP , filho de Francisco Lopes e Maria Nunes Lopes,

Morou em sua cidade natal até os seus 19 anos de idade . Hoje vive em São Bernardo do Campo-SP.

Sua infância e adolescência, em Cubatão , foi muito rica em acontecimentos e bem observada pelo poeta (amador),e que guardadas em seu recôndito, serve por vezes, como fonte inspiradora para seus textos.

 

POESIA - OUTUBRO/ 2007

 

A rede e o amor

 

 

Ouça o mourejar das ondas,

Olha a lua ainda lá.

O mar te acorda na cheia,

Não demora clarear.

 

Pega o vento jangadeiro

Põe na vela, vai pra o mar,

O vento é dado por Deus,

O peixe tem que pescar.

 

Ficou na beira da praia,

Lá na terra uma flor,

Mariana Alves Santos,

Mariinha seu amor.

 

Joga a rede pescador

Não espera amanhecer,

Aproveita que tem peixe,

Amanhã pode não ter.

 

Pra fazer o mundo inteiro,

Sete dias Deus levou,

Cada malha da sua rede,

É o amor que ela jurou.

 

Pra a rede não se romper,

Puxa ela devagar,

Puxa e canta pescador,

Seu amor ta a lhe esperar.

 

Tanto a rede quanto o amor,

Pedem amabilidade,

A rede é feita de linha,

E o amor é de saudade.

 

José Alberto Lopes.

 

 

POESIA - SETEMBRO/ 2007

 

 

OS DIAS QUE FORAM SOMENTE DOS ÍNDIOS

(Antes da chegada da frota)

...Ouviam da terra o riso do sol,
O vento cantando entre as fendas das pedras,
A abelha zumbindo na copa da flor,
O murmúrio da fonte no oco da mata.

E viam correr pelas brenhas difíceis,
O Boitatá, Curupira, coisas do mato.
Nos rios a temível Igpuiára,
E cousas de fogo voando nos céus.

E sentiam o calor da mata fechada,
E o ar refrescante das praias abertas,
E respeitavam seus velhos e a natureza,
As mulheres,os bichos e os curumins.

E como crianças eram puros,
E tinham lá o milagre dos peixes,
Seu pão de mandioca, a oca,
E um Deus “generoso” chamado Tupã.

Eram muitos, tantos, incontáveis,
Antes da chegada daquela frota.
Viviam nus como vivem os peixes
E enfeitavam o corpo como se fossem aves.

Não guardavam, vendiam ou trocavam,
Só caçavam e pescavam o que comiam,
Eram, pois, os guardiões das florestas,
Daquele imenso Brasil encoberto.

Eram Tamoios, Tapuias e Tupis,
Guaicurus, Guajajaras, Guaranis
E outros, que foram felizes e assim viveram,
Até o aportar das naus de além-mar

Que no peito da América num éden oculto,
O desfrute incauto vieram colher.
E ainda em nome da cruz que “livra” o mundo,
Nas catequeses criaram escravos,molambos!


SBC-SP-JAL®
19/04/2007

 

 

 

 

POESIA e POEMAS  - AGOSTO/ 2007

 

Olá amigos, hoje peço permissão para  comentar sobre  uma manifestação poética que nasceu no Japão medieval e que  se chama: Haicai. Ainda pouco difundida aqui no Brasil, embora tenha sido trazida a nossa terra já há quase cem anos, por ocasião da chegada dos primeiros imigrantes japoneses.

Trata-se de um poema conciso formado por 17 sílabas poéticas (5-7-5) um terceto, sem título, sem rimas, respeitando o Kigô, que é a palavra que define em linhas gerais, a estação do ano:

Primavera: flores, alegria, renascimento...

Verão: calor, canto da cigarra, liberdade, férias...

Outono: melancolia, decadência, senectude...

Inverno: tranqüilidade, reclusão, frio, morte...

 

Haicai é contemplar a natureza, registrando o momento efêmero, como faz um fotógrafo quando clica a sua máquina.

Resume uma impressão, um drama, às vezes deliciosamente, não raro profundo, fazendo sempre que possível, uma referência às estações do ano, como já foi dito, seu reflexo na alma do poeta, de forma simples e com sentido completo. No Haicai, não se explica tudo, parte, fica para o leitor...

Aceita-se Haicai dito, ocidentalizada com introdução de algumas peculiaridades, mas sem exageros.

Yosa Buson e Matsuo Bashô que viveram há muito tempo atrás, entre outros, são considerados mestres do Haicai no Japão.

Vamos fazer Haicais?  Tente o seu e depois me escreva ta bom?

 

Aqui, alguns exemplos de Haicai.

 

Veja a brisa matinal                 

soprando os pêlos                   (Y.Buson)

da taturana.

 

Na noite encurtada

demora-se sobre o monte,      (Y.Buson)

um trapo de lua.

 

Da porta do templo,

vê-se o bambual curvado       (A. Seixas)

pela ventania.

 

Olhem a tapera!

que coisa linda tomada           (J.A.Lopes)

de flores de guaco.

 

Dia frio de inverno,

um portãozinho boceja            (J.A.Lopes)

ao vento da tarde.

 

Pelas mãos do artista

olham-se no mesmo guache   (J.A.Lopes)

a lua e a gueixa.

 

Veja o vento frio

arrepiando a pele                  (J.A.Lopes)

do lago que dorme.

 

Olho os estilhaços

da lua entre as folhagens       (J.A.Lopes)

e piso seus cacos.

 

A cigarra canta

na janela do mosteiro,            (J.A.Lopes)

infindável mantra.

 

Veja a mamangava

construindo nova casa           (J.A.Lopes)

num velho mourão.

 

 

Um abraço amigo Magno.

J.A.Lopes

 

 

POESIA - JULHO / 2007

 

GALEÃO DE AREIA

 

 

Do que valem teus mastaréus e gurupés,

As velas redondas e as velas bastardas,

Se dando-se à praia, lá te fundeaste?

 

Do que te vale perfeita quilha

Se nunca sentiste a fúria

Ou o enlevo das marés?

 

Nunca bordejaste e nunca foste adriçado!

Nada sabes do amargo das tormentas,

Nem o doce de uma brisa!

 

Para que servem tuas amarras

Se a procela que lá se levanta

Não tocará sequer um palmo do teu velame?

 

Do que valem teus remos sobre o convés

Se a calmaria da areia não os importuna,

E assim agonizam ociosos e já outoniços?

 

Mesmo, pois, observa a viração noturna

A esquadrinhar teu casco seminu,

E um farol em idílios a te chamar...!

 

 

SBC-SP-José Alberto Lopes®

14/07/2006

 

 

Um crime Lácteo

 

 

Chegou o leiteiro de mansinho

e lá no três quarenta e dois,

deixou seis leites com carinho

e o trabalho pra depois!

 

Ornela Góes já o esperava,

Cheirando a rosa e anis

pois com um sinal avisara,

o carancho infeliz.

 

Foram quentes madrugadas,

e enquanto um fazia pão,

o outro à massa alheia, sovada,

gozava com sofreguidão!

 

Mas um  dia, como outros tantos,

vestidos apenas de vento,

foram flagrados, e, portanto,

morreram antes  do intento.

 

Foram três gritos, um trio!

junto a três tiros fermentados,

três corpos sobre um piso frio,

 sangue e leite, misturados!

 

A multidão ficou sem crer

no dantesco quadro apresentado

e pasmada lamentou ao ver,

tanto leite derramado!

 

 

SBC-SP-José Alberto Lopes ®

24/04/2006

 

 

 

 

POESIA - JUNHO / 2007

 

 

FELIPE, Capítulo XIX

 

Eu vi o menino Felipe

De mãos no bolso e sem bagagem,

Voltava da Europa distante,

Após um ano de viagem.

 

Julgou-se já em sua casa

Quando aportou o Oriana.

De mãos no bolso e sem bagagem,

Regressa à terra da banana.

 

“Cubatão de eras históricas,

Que teve até Porto Geral,

Só às terças, quintas e sábados,

Corre um trem nesse ramal?”

 

Era sexta, não havia trem!

Era folga do maquinista,

E ele então pisou cada dormente

Como se uma escada infinita!

 

Beirou os valos bem verdinhos

Todos de musgos recamados.

Com o seu chapéu de aba larga

Que o vento ousou sem dar recados!

 

A serra mostrava-se inteira,

O vento varrera a cerração.

O olaria é meio caminho,

Lá da Europa à Cubatão!

 

E segue o menino Felipe

Entre o verdor daquela mata,

Que tinha garças e socós

E até um cão vira-lata.

 

Segue mais, mais e muito mais,

Um estirão a mais, e a ponte!

Negra como a noite já tingia,

A tênue linha do horizonte.

 

Do outro lado, a sua casa,

No meio das tangerineiras,

Era um chalé cor-de-rosa

Tomado por mil trepadeiras.

 

Ajuntando as folhas caídas,

No quintal estava a sua madre.

Já com mais brancos nos cabelos,

Do que os cirros daquela tarde.

 

_ A benção, mamãe, disse ele,

Com seu jeito todo gaio.

_ Então é você, seu mestre?

 A benção, respondeu-lhe de soslaio!

 

 

SBC-SP-José Alberto Lopes®

01/05/2007

 

 

Esta é a minha homenagem ao nosso poeta maior, Afonso Schmidt pelo seu 117º aniversário de nascimento

Que ocorre em 29 de junho. (Baseado em texto publicado no Portal de Cubatão)

 

 

 

POESIA - MAIO / 2007

 

Soneto da escuridão

 

Farol da costeira que longe brilha
Plantado na pedra daquela ilha.
Do navegante à noite é o seu guia,
É o anjo dos pélagos, seu vigia!

Daqui se vê a luz forte e tronante
Olho noturno de olhar palpitante,
Como flertando as estrelas assim,
Que rolam nas vagas desde os confins.

Luz da costeira que vara a neblina,
Cega os meus olhos , a minha retina,
Para que eu não veja a luz do adeus

Nos olhos tão claros dessa menina,
Que rasga o meu peito feito rapina,
Dê-me o invisível brumoso dos breus!


SBC-SP.José Alberto Lopes®
03/01/2003

 


 

 

Maria-Traquitana

 

 

Caldeira inda fria

não move ninguém,

foguista na boca

alimenta-a bem.

 

Faz muita fumaça

Muito nhenhenhém

co'a pressão lá em cima

andar lhe convém!

 

Agora desliza

igual a ninguém,

lá vai  a Maria

puxando esse trem.

 

A fumaça é u'arco

que eclipsa o céu,

alguém na janela

perdeu seu chapéu!

 

Barriga vazia

não move ninguém,

foguista com fome

papando vai bem.

 

Na curva apita

prevendo a chegada

a uma estação,

"que longa parada"

 

O vapor está frouxo?

será lenha molhada?

será falta de água?

ou caldeira furada?

 

Mas segue Maria

em meio à fumaça

fazendo barulho,

fazendo chalaça.

 

Vai besta na serra

bufando e uivando,

lá vai a madame

nos trilhos dançando.

 

Levando dois carros

de gente apinhados,

vão feio e bonito

de medo abraçados!

 

Tem água fresquinha

pra o emocional,

pra quem desce a serra

rumo ao litoral.

 

Se o cabo arrebenta

nem vale  a oração,

o vale é profundo

mas finda no chão!

 

 

Era assim que se vencia a velha serra do mar, num sistema chamado de:

Sistema Funicular Ferroviário, empregado pela E.F.S.J. até meados de 1970.

Sistema por cabos de aço de ações externas, auxiliado por Locobreques que

eram as locomotivas  a vapor! [Maria-fumaça] Viagens, fiz muitas por ali.

 

 

SBC-SP-José Alberto Lopes®

28/05/2006

 

 

POESIA - ABRIL / 2007

 

Mangues vermelhos

 

Voltou o Guará-vermelho

Deu na Net e nos jornais,

É sinal que volta a vida,

Nas orlas dos manguezais.

 

Partiram há muito tempo

Como um adeus pra nunca mais,

Deixando tristes os mangues

Agonizantes, em ais.

 

Eu também parti menino

Com idéia de voltar,

Vivo bem nas serranias

Mas o vale é o meu lugar.

 

“Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá”

Pra ver meus rios e lagoas,

E as brenhas que ainda há.

 

E dos amigos de infância,

Encontrar algum, quiçá,

E ver os mangues vermelhos,

Salpicados de guarás!

 

SBC-SP JAL®

17/04/2007

 

Nota: este poema, além de evocar saudades, vem também homenagear o Guará-Vermelho que retorna aos manguezais da região, assim como os abnegados que lutaram e continuam lutando pela preservação do meio ambiente em qualquer parte deste planeta.

 

 


 

 

O Martim-pescador

 

 

Tié-fogo voou

Coleirinha cantou

Sabiá respondeu

Veio o Fogo-apagou.

 

O Martim se enganou

Entre as ramas olhou

Parecia uma luz

O olho do caçador.

 

Tié-fogo voou

A Jandaia avisou

Jaçanã estremeceu

Quando o tiro ecoou.

 

E a mata ficou

Mergulhada na flor

Da fumaça expandida

E o cheiro de dor.

 

Viuvinha chorou

Sabiá perguntou:

"Onde foi que caiu

O Martim-pescador “?

 

 

SBC-SP. 05/10/2005

Autor - José Alberto Lopes®

 

 


 

Parapente

 

Vejo a tênue curva no horizonte,

Estou num turbilhão ascendente.

Meu corpo é pluma, é gaivota,

Metade humana e parapente!

 

O vento encrespa os meus cabelos,

Agora já não sou mais gente.

Eu estou por fios dependurado,

Sou ave seda, sou parapente!

 

O sol se pondo vem me sorrir

Um lusco-fusco ainda ardente,

Que somente aos pássaros é dado,

E a quem tem olhos de parapente!

 

Já não sonho mais, agora eu vivo

A real liberdade das correntes,

Já sou de um bando como as gaivotas,

Somos um bando de parapentes!

 

 

SBC-SP-José Alberto Lopes®

12/01/2007

 

 

POESIA - MARÇO / 2007

 

Cordel para Vicente de Carvalho

 Advogado e Político
Magistrado e Jornalista
Nasceu em terras praianas
Aqui em solo Paulista
Onde o mar é testemunho
De tal poeta santista.

Nos idos mil 866
Em abril do quinto dia
Filho do Major Higino
O então poeta nascia
Filho também de Augusta
A mãe que ao mundo o traria.

Veio depois do primário
Estudar na capital
Lá no colégio Mamede
” Seminário episcopal “
O menino já poeta
Mostrava-se genial.

Faculdade de Direito
Já com vinte, bacharel,
Republicano ferrenho
Desempenhava seu papel,
Sem perder a suavidade
De poeta e Menestrel.

A poesia florescia,
Com tendências Parnasianas,
Grande artífice dos versos
Lá pelas orlas praianas,
Versos leves, sobre espumas,
Fundos versos, Marianas.

Ante ao golpe de Deodoro,
Foi lá pra Franca morar,
”Profundo golpe em seu peito“
Como profundo é o mar,
Que lhe era como um ópio,
Versos, sangue elementar.

Nas ardentias das tardes
Seu coração marulhava,
E na alvura de uma brisa,
O poeta já alinhavava
Mais um verso, uma prosa,
Enquanto o sol descambava.

"Deixa-me, deixa-me fonte
dizia a flor a chorar "
E "Fugindo ao cativeiro"
Vejo "Palavras ao mar"
"Relicário, Voz dos sinos"
És o poeta do mar!

Hoje há uma estátua erguida
Relevando o bem-feitor!
Na política e na cultura
Chama ardente, sim senhor!
Foi Vicente de Carvalho
Grande poeta e Doutor.


Vicente Augusto de Carvalho foi poeta, contista...Político.
Cadeira nº 29 da ABL. Santos: 05/04/1866 - 22/04/1924

SBC-SP.José Alberto Lopes®
17/03/2005


 

Canção do salineiro

A vida já é bem salgada ,
que dirá a do salineiro
que trabalha de sal a sal
ao sol do ano inteiro .

Impávido é o salineiro ,
em meio à brancura e ao relento .
retira do mar o sal ,
seu salário seu sustento !

Mágico é o salineiro ,
no palco branco e isolado ..
Extrai do mar tanto sal
e o mar continua salgado !


SBC-SP.José Alberto Lopes®
13/05/2003

 


 

Na Paulista

 Eu a vi inerte na vitrine,

Um gesso formatado em mulher,

Numa tarde quente na Paulista

Na esteta moldura da valiser!

 

Trazia os seios envernizados

Pela luz do sol que declinava,

Como que pra vê-la como eu,

Já nos últimos raios suspirava.

 

Rosto afilado, cintura curva,

Parecia-me olhar de soslaio

Com um brilho nos olhos, tão vivaz,

E nos cabelos, flores-de-maio!

 

 

SBC-SP.-24/09/2005

[José Alberto Lopes®]

 


 

Caçadores de orquestra

 

 A chuva cessa

Ardente é o brejo,

Sinfonia coaxante,

Caçadores sem pejo.

 

Capotes, homens,

Na noite, Netunos.

Luzes, tridentes,

Anuros soturnos!

 

Silencia o brejo,

Num segundo se atesta,

Não há mais sinfonia,

Caçaram a orquestra!

 

 

SBC-SP.30/10/2005

Autor - José Alberto Lopes®

 


 

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Página atualizada em Maio/07


 

 

 

 

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